Modesto Primeiro Andar
Crónica. Ricardo Gonçalves, 2023
Dizia o Tim, há uns anos, “As saudades que eu já tinha da minha alegre casinha”. Pois é, quem nunca sentiu isto na pele? Arrisco-me a responder à minha própria pergunta, afirmando que grande parte da população jovem em Portugal não faz ideia do que falava o Tim quando os Xutos e Pontapés lançaram esta música. “Saudades do que a gente ainda não viveu”, célebre frase de engate do jogador Neymar Jr – assim sim! Eu e os meus congéneres sabemos lá o que é ter a nossa casinha. E a culpa (não) é nossa, claro! Preguiçosos, não queremos fazer nada!
Publicação no Twitter que consiste numa compilação de recortes de artigos jornalísticos, datados de 2022 até 1894 (!), onde se afirma que já ninguém quer trabalhar.
Não dá para fintar esta questão. Parece-me a mim, do alto dos meus 30 anos, que a independência perdeu o in. Crescemos a querer ser advogados, bombeiros, músicos ou pilotos. Quem diria – afinal, tornámo-nos todos palhaços! Mas nem um espaço para o circo conseguimos alugar. Bem, talvez até consigamos, mas quem é que se responsabilizaria pelo barulho que o público faria enquanto espera na fila para subir as escadas para o T1 num terceiro andar na Rinchoa? E como é que lá inserimos o elefante e o trapézio? Alguém que me elucide rápido, estou farto de tropeçar com os meus sapatos gigantes.
Sem desprimor para com os palhaços, nobre profissão, o que eu queria mesmo era a tal casinha, tão modesta quanto eu. Foi-me vendido um sonho furado: vais para a faculdade, arranjas um trabalhinho, casas-te com uma jovem e encontram uma habitação. Fácil! Com jeitinho, ainda junto um pug à equação. Esqueceram-se foi de mencionar que a mais modesta das habitações, em Lisboa, atinge preços exorbitantes. Os cínicos dirão “rapaz, se em Lisboa as casas são muito caras, tens bom remédio: há muita casa barata em Viseu!” ou algo como “se não tens dinheiro suficiente, trabalha mais!”. Pois bem, não duvido que haja sol em Viseu e que seja uma cidade encantável, mas a minha vida está toda nesta zona da península, e até podia trabalhar 72 horas por dia, que desconfio que continuaria longe dos meus objetivos.
É justo pedir-nos (impor-nos) tal mudança? Não se trata de justiça, trata-se de sobrevivência, o que me parece estranho, tendo em conta que Portugal pertence ao lote de países desenvolvidos, e que ao estatuto social devia acompanhar um certo estatuto económico. Bolas, eu não quero ser o Bill Gates, nem tão pouco preciso de uma piscina em casa! Mas como posso (podemos) aspirar a uma habitação digna desse nome, quando os senhorios pedem 800€ por um apartamento nos subúrbios de Lisboa, no quinto andar, sem elevador nem quadro elétrico moderno, com o quarto colado à sala? O meu filho que se lixe, pode dormir na bancada da cozinha! E o pug? Malditos 700€, se os tivesse poupado, conseguia o apartamento do quarto andar!
