Modesto Primeiro Andar

Crónica. Ricardo Gonçalves, 2023

Dizia o Tim, há uns anos, “As saudades que eu já tinha da minha alegre casinha”. Pois é, quem nunca sentiu isto na pele? Arrisco-me a responder à minha própria pergunta, afirmando que grande parte da população jovem em Portugal não faz ideia do que falava o Tim quando os Xutos e Pontapés lançaram esta música. “Saudades do que a gente ainda não viveu”, célebre frase de engate do jogador Neymar Jr – assim sim! Eu e os meus congéneres sabemos lá o que é ter a nossa casinha. E a culpa (não) é nossa, claro! Preguiçosos, não queremos fazer nada!

Não dá para fintar esta questão. Parece-me a mim, do alto dos meus 30 anos, que a independência perdeu o in. Crescemos a querer ser advogados, bombeiros, músicos ou pilotos. Quem diria – afinal, tornámo-nos todos palhaços! Mas nem um espaço para o circo conseguimos alugar. Bem, talvez até consigamos, mas quem é que se responsabilizaria pelo barulho que o público faria enquanto espera na fila para subir as escadas para o T1 num terceiro andar na Rinchoa? E como é que lá inserimos o elefante e o trapézio? Alguém que me elucide rápido, estou farto de tropeçar com os meus sapatos gigantes.

Sem desprimor para com os palhaços, nobre profissão, o que eu queria mesmo era a tal casinha, tão modesta quanto eu. Foi-me vendido um sonho furado: vais para a faculdade, arranjas um trabalhinho, casas-te com uma jovem e encontram uma habitação. Fácil! Com jeitinho, ainda junto um pug à equação. Esqueceram-se foi de mencionar que a mais modesta das habitações, em Lisboa, atinge preços exorbitantes. Os cínicos dirão “rapaz, se em Lisboa as casas são muito caras, tens bom remédio: há muita casa barata em Viseu!” ou algo como “se não tens dinheiro suficiente, trabalha mais!”. Pois bem, não duvido que haja sol em Viseu e que seja uma cidade encantável, mas a minha vida está toda nesta zona da península, e até podia trabalhar 72 horas por dia, que desconfio que continuaria longe dos meus objetivos.

É justo pedir-nos (impor-nos) tal mudança? Não se trata de justiça, trata-se de sobrevivência, o que me parece estranho, tendo em conta que Portugal pertence ao lote de países desenvolvidos, e que ao estatuto social devia acompanhar um certo estatuto económico. Bolas, eu não quero ser o Bill Gates, nem tão pouco preciso de uma piscina em casa! Mas como posso (podemos) aspirar a uma habitação digna desse nome, quando os senhorios pedem 800€ por um apartamento nos subúrbios de Lisboa, no quinto andar, sem elevador nem quadro elétrico moderno, com o quarto colado à sala? O meu filho que se lixe, pode dormir na bancada da cozinha! E o pug? Malditos 700€, se os tivesse poupado, conseguia o apartamento do quarto andar!